Maldições e as Janelas Quebradas

Como rituais para prejudicar outras pessoas, podem aparentemente funcionar?

Conversando com uma amiga sobre “rituais para o mal de outras pessoas”, como maldições, magia negra, amarração, trabalhos feitos por membros da Umbanda ou Candomblé, orações de pessoas cristãs como por exemplo “que Deus te mande para o deserto para te punir”, podem aparentemente “funcionar” ou “atingir” o alvo, onde a pessoa que é atacada tem aparentemente a vida destruída ou pelo menos uma sucessão de má sorte que confirmam o poder dessas práticas.

Porém durante essa reflexão, podem surgir questões do tipo:

  • Até que ponto uma maldição, trabalho ou amarração, podem se sobrepor as escolhas e vontades da pessoa “amaldiçoada”?
  • Até que ponto uma maldição, trabalho ou amarração, podem se sobrepor ao destino, acaso ou karma da pessoa?
  • Invariavelmente alguém que é atacado por esse tipo de coisa será atingido, porque e como se defender?
  • Pode uma maldição, trabalho ou amarração ser mais forte do que o livre arbítrio que todos os seres humanos presumem ter?

Não pretendo dar respostas a todas as questões acima, mas explicarei como essas coisas podem aparentemente funcionar, já que, creio que nada pode ser mais forte do que as linhas de caminhos que estão postas na vida de uma pessoa, o livre arbítrio de tomar as próprias decisões e ser responsável por elas.

Assim como comentei com minha amiga, essas coisas só funcionam, não por que agem assumindo controle da vida delas, e sim, por explorarem as brechas que a pessoa “amaldiçoada” tem em sua vida. Uma teoria que se encaixa muito bem nisso, por mais que não seja uma teoria esotérica ou espiritual, reflete muito o que quero dizer:

A Teoria das Janelas Quebradas

No final da década de 60, psicólogos americanos resolveram dar início a uma curiosa experiência. Deixaram dois automóveis idênticos abandonados em bairros diferentes do Estado de Nova York, um em bairro nobre e outro na periferia. O resultado não poderia ser diferente. O carro que estava na periferia foi rapidamente depredado, roubado e as peças que não serviam para venda foram destruídas. O carro que estava na área nobre da cidade permaneceu intacto. Mas isso os pesquisadores já poderiam prever. O que eles queriam mesmo comprovar era um outro fenômeno. Com isso, prosseguiram quebrando as janelas do carro que estava abandonado em um bairro rico e o resultado foi o mesmo que aconteceu na periferia: o carro passou a ser objeto de furto e destruição. Com isso, chegaram os pesquisadores, a conclusão de que o problema da criminalidade não estava na pobreza e sim no desenvolvimento das relações sociais e na natureza humana.
As bases teóricas dessa constatação veio com a Teoria das Janelas Quebradas, desenvolvida na escola de Chicago por James Q. Wilson e George Kelling. Explica que se uma janela de um edifício for quebrada e não for reparada a tendência é que vândalos passem a arremessar pedras nas outras janelas e posteriormente passem a ocupar o edifício e destruí-lo. O que quer dizer que a desordem gera desordem, que um comportamento anti-social pode dar origem a vários delitos. Por isso, qualquer ato desordeiro, por mais que pareça insignificante, deve ser reprimido. Do contrário, pode ser difusor de inúmeros outros crimes mais graves.

Não vou entrar no mérito na teoria acima sobre a construção social da nossa sociedade e a violência, me atento apenas ao tema do texto em si. As brechas que citei acima, são as áreas em que as pessoas deixam na desordem e assim uma janela quebrada que pode ser usada como porta de entrada para que as maldições atuem.

Por exemplo, uma pessoa que possui vícios, como álcool, jogo, mulheres ou qualquer coisa em exagero de forma desordenada em sua vida, tem uma tendência que, a partir dessas entradas, possam vir uma destruição iminente para elas, agindo sobre essas entradas que a pessoa deixou em desordem. Dificilmente uma pessoa ponderada, que administra bem o que possui de bens, com reservas de emergências e principalmente disciplina financeira, será atingida por uma maldição de “pobreza” por exemplo, em relação a uma pessoa que gasta desordenadamente, sem qualquer controle ou ponderação. E o mesmo se aplica a consumo de álcool, relacionamentos mal estruturados e toda sorte de coisas que temos desordenada em nossas vidas. Não atoa, em diversas religiões e filosofias espirituais distintas, prezam por deixar o ambiente organizado, não deixar nada desorganizado ou no improviso, por serem portas para energias ruins, ou influências negativas que atuem através disso.

Então, a grande questão, “como se proteger” dessas coisas, parte do principio de concertar todas as “janelas quebradas” em nossas vidas, se desordem causa desordem, logo, a ordem mantém as coisas seguras e sem brechas para que “outros” possam se aproveitar para nos atingir, ou melhor dizendo, nos atingindo pelas oportunidades que damos a eles de explorarem por sermos negligentes e descuidados.

Pessoas que lidam com a vida espiritual com o minimo de respeito e disciplina (vida espiritual), pessoas que tentam ter o minimo de controle e planejamento financeiro (vida material), pessoas que se alimentam bem e praticam exercícios (saúde), pessoas que se esforçam para construir relações sociais saudáveis e controlarem a mente e emoções (vida emocional), e pessoas que sabem controlar e não ser controlado pelos exageros e desejos, tendem a serem mais seguras e protegidas de serem atacadas, influenciadas,por esse tipo de coisa.

Mesmo para aqueles que adeptos de caminhos do ocultismo, e conhecedores de rituais de banimento por exemplo, devem ter consciência das fraquezas e áreas da vida que estão abandonadas, sujas e sem ordem. Como diria uma bruxa que acompanho, “mesmo no Caos, nem tudo deve ser bagunçado”.

Quais janelas estão quebradas na sua vida hoje?